Quem de nós já não se sentiu culpado por ter pensado algo?
Quem de nós já não se sentiu culpado por ter agido de um modo?
Quem de nós já não se sentiu culpado por não ter feito nada?
Culpa ! Sentimos culpa por tão diferentes coisas, que perdemos a conta de quais foram os motivos, mas ficamos com a sensação de que, de uma maneira ou de outra, não agimos de modo certo.
Culpa é uma reação emocional aprendida. Nos ensinaram, pelo sistema de punição e recompensa, que devemos receber elogios quando acertamos e que devemos nos sentir culpados e ser castigados sempre que errarmos.
Herdamos a culpa, como um mecanismo de vigilância e tortura, a nos impedir de fazer novamente o erro ou não nos esquecer dele. É um ponto adquirido da cultura e dos valores sociais.
Quando ela aparece? Há um modelo ideal a ser cumprido. Quando percebemos, por nosso julgamento moral, que ele não foi realizado, entramos no processo da culpa. Ela é uma forma de autopunição, de autocondenação. É como se nos castigássemos, consciente ou insconscientemente, do "mal" que praticamos.
É uma maneira agressiva de olharmos para nós e vermos nossas ações ou mesmo nossas atitudes. Na realidade, ficamos com raiva de nós, do outro que nos cobra, que nos mostra nossa falha. Puxamos a raiva para nós e a transformamos em culpa.
Força terrivelmente ativa, corrói nosso poder de nos controlar interiormente. Nos deixa doentes, sem capacidade de domínio, sem capacidade de relaxamento, sem pique, sem prazer de viver, sem presença.
Por que fazemos isso conosco? O que nos leva a uma auto-agressão? Que tipo de coisa acontece em nosso interior que produz em nós sensação tão perturbadora?
Perturbadora sim, pois incomoda, sufoca, põe para baixo, nos deixa como que paralisados frente a algumas coisas. É uma dor moral, que não há remédio que cure. Procuramos não vê-la, esquecê-la, mas ela persiste, sustentada por nossas crenças, nosso modo de pensar.
Tudo porque queremos ser o que não somos. Pura pretensão! Sofremos de culpa porque queremos ser melhores, maiores, mais capazes do que somos. Queremos ser o modelo ideal de pessoa. Modelo que construímos em nossa ilusão, modelo que so existe em nossa cabeça.
Origens das culpas

Os impulsos de vida brotam em nós, nos impelindo à ação, estimulando nossos potenciais e nos auxiliando na busca do equilíbrio interior. Instiga-nos a tomar atitudes que nos levem à satisfação de necessidades para que nos sintamos em harmonia e no fluxo da vida.
Esses impulsos surgem em estado natural e necessitam da ação da consciência para que sejam vivenciados de maneira adequada, formatados de modo a ser usados com plenitude.
Mas, em vez de trabalharmos só com o bom senso, com a ligação alma-intelecto, permitimos que leis externas a nós e também internalizadas em nós observem nossos comportamentos e os julguem como certos ou errados. Isto é, determinamos alguns padrões de conduta e como devem ser nossas ações com relação a eles.
Criamos, enquanto crescemos, algumas normas que devemos seguir, só que, às vezes, não conseguimos levar adiante o que criamos para nós. Será que quando bebês sentíamos culpa? Será que o índio sente culpa?
Não, nem um, nem outro. O bebê não se sente culpado ou com vergonha por ter feito um berreiro por causa da fome ou por dormir no meio da festa de batizado. Assim como o índio antropófago não se culpa por ter comido o coração de seu inimigo.
Podemos perceber, com esses exemplos, que aprendemos com a sociedade a nos sentir culpados. Fomos educados de maneira que, ao proceder de maneira inadequada, além de ser castigados, deveríamos carregar a culpa.
Dependendo da falta, isso toma proporções diferentes, mas o fato fundamental, a culpa, permanece. Podemos ter uma "dor de consciência" a uma doença gravíssima por somatização da culpa.
Existem muitas situações provocadoras de culpa, como também muitas reações diferentes frente a essas situações.
Voltemos aos impulsos de vida. Eles nos incitam a conhecer, dominar, ter prazer, atuar, ser. Mas, quando os estamos exercitando, em vez de nos ensinarem a adequá-los de modo útil para que possam se desenvolver, eles são reprimidos ou condenados.
Assim, quando queremos saber sobre as coisas, ver, tocar, sentir, escutamos falas como:
- Vai. Vai viajar, eu fico aqui sozinha...
- Tira a mão daí, menino !
- Se você fosse mais inteligente...
- Onde já se viu perguntar uma barbaridade dessas...
- Isso não é coisa para se comentar.
- Não toque em minhas plantas!
Engolimos nossa curiosidade, nossa necessidade de investigação, nos sentimos mal por termos provocado no outro tamanho estupor com a vontade que tínhamos de saber.
Aprendemos, dessa maneira, que somos abelhudos, indiscretos, e que isso não é uma atitude correta. Devemos ser comedidos, só ver com os olhos, não questionar muito, não sentir para não precisar perguntar. Só que continuamos com o impulso, aí ele se vira contra nós e acabamos por nos sentir culpados por ser ignorantes, por não saber distinguir bem as coisas, por não ter discernimento suficiente.
Entramos na dependência de outras pessoas que julgamos mais capazes que nós, ficamos com medo do inesperado, do desconhecido, e nos sentimos culpados por não conseguir ser como deveríamos.
Outras vezes, temos aquela vontade de dominar as coisas, de dirigi-las segundo nossas percepções, e escutamos falas como:
- Que vão pensar os vizinhos?
- Olha o que você está fazendo comigo, sendo tão teimoso!
- Seja mais obediente, mais acessível.
- Ou você senta e cala a boca ou...
- Você desobedeceu a Deus...
- Isso é teu carma e você tem de cumprir.
- Não grite comigo, pois eu sou...
Em minha casa, por exemplo, não era necessária a fala, bastava o olhar de meu pai para que ficássemos quietos.
Tornamo-nos pessoas sem muita coragem, sem muita firmeza, sentimo-nos impotentes frente às situações da vida. A sensação de culpa vem quando não conseguimos segurar determinadas barras, quando não dizemos o que temos vontade, quando não confrontamos o outro, quando não temos a força necessária para mudar o que não mais queremos.
Em relação ao prazer, a busca por ele também é bastante produtora de culpa, pois, se tem uma regra que nos ensinaram bem, é que o prazer é pecado. Vamos recordar algumas coisas que escutamos:
- Seu parto foi muito difícil.
- Onde já se viu, desse tamanho, fazendo xixi na calça.
- Tire a mão daí, é feio.
- Você não se envergonha de ficar tanto tempo vendo tevê?
- Esse tipo de carinho já não serve mais para uma mocinha.
- Você é muito gorda para andar de short.
- Credo! Você ficou duas horas tomando banho. Quem paga?
- Você não tem nada de útil para fazer?
- Festa? Festa para quê? Você vê seus amigos todos os dias na escola. Não precisa juntar ninguém.
- Pare de cantar, pois está me deixando louca.
Embutimos nossa busca de satisfação, nossa alegria de viver, nosso entusiasmo e agora nos sentimos culpados quando temos um pensamento sexual, quando sentimos necessidade de fazer um carinho, de tocar alguém, quando temos um tempo de folga e não o usamos fazendo algo "útil", quando transamos com alguém e não sentimos nada, por termos vontade de ser "fúteis".
A sensação de culpa vem provocada pela sensação de imperfeição, pela sensação de não se satisfazer nunca, de julgar-se relaxado, sem criatividade, sem a feminilidade ou a masculinidade necessária. Quando nós mesmos nos achamos uma companhia desagradável, não sabemos nos dirigir às pessoas.
O pior: não sabemos como nos livrar disso. Torna-se um círculo vicioso, pois sentimo-nos incapazes de descobrir, sentimo-nos culpados por isso, essa culpa aumenta a outra, que, por conseguinte, tende a aumentar o problema e a diminuir nossa capacidade de lidar com ele.
A autocondenação

Vimos como aprendemos a nos sentir culpados. Que ao recalcar nossos impulsos naturais produzimos núcleos em nós que provocam sensações de culpa.
Esse mecanismo é aprendido por nós e passamos a usá-lo conosco sem a necessidade da presença do outro para nos coibir ou acusar. Internalizamos "os outros", a normas culturais, os padrões sociais.
Quando quebramos uma regra dessas, um código moral, uma expectativa do mundo ou um ideal nosso, tendemos a nos sentir culpados. Não aceitamos que se não cumprimos é porque não tínhamos condição de cumprir. Pedimos mais do que realmente podíamos dar.
Queremos ser o que não temos condições de ser. Nós não somos o que pensamos de nós. Só somos o que somos. Nossa mente fantasia em cima das possibilidades dos seres e nos achamos capazes de, ao idealizar um modelo de pessoa, vestir o que inventamos.
Vaidade ! É, culpa é vaidade. É orgulho espiritual. Queremos com nossa culpa mudar o que fizemos. Queremos trabalhar com a fantasia e ir contra a realidade. Que realidade? Aquela que nos mostra que só podemos o que podemos, o resto é fruto de idealização, do manequim que montei para mim, mas não sou eu.
O que eu pude, fiz; o que não fiz, é porque não podia. Não tinha maturidade para, não me interessava, não tinha consciência das consequências. Mas, o que realmente era, foi feito.
Não adianta a gente chorar o leite derramado. Derramou porque não ficamos olhando. Só! Choramos em cima de um código que não cumprimos, porque não nos pertencia de verdade.
É como se tivéssemos um juiz dentro de nós. Não percebemos a realidade, só o código. Unimos nosso juiz pessoal com o juízo social e criamos uma forma-pensamento que nos condena e nos absolve em todas as atitudes. Um juiz que só sabe julgar, que tenta fazer com que as experiências entrem no quadro de valores aprovado pela moral social. Não há discernimento, não há bom senso; o que vale para um passa a valer para todos.
As diferenças individuais, as experiências, o nivel de consciência não contam. Tudo precisa estar na tabela do certo e do errado, dentro dos "tinha de", dos eu "devia", como se o ser humano coubesse dentro de algo preestabelecido, como se desconsiderasse toda a individualidade que lhe é pertinente.
Se sabemos disso, por que escutamos? Escutamos porque também aceitamos o erro, porque acreditamos nele. Acreditamos nos mesmos códigos que nos fazem mal. Nos pegamos dizendo: "Ah! Eu deveria ter ido vê-la, mas não fui porque não tive tempo" ou " Eu tinha de ter feito, mas não tive como, pois..." .
Arrumamos desculpas para as coisas que não foram exatamente como foram. Desculpas para atenuar nossa culpa de ser como somos.
Acreditamos que existe um melhor e que se nos esforçarmos chegaremos a ser o ideal que imaginamos ser. Pura ilusão! Não tem ser melhor, tem ser. Aquele que acredita poder ser melhor é porque se julga pior, se julga menos.
Nos culpamos porque exigimos algo de nós, que não podemos ser. Queremos poder o que não somos capazes. Seguimos o preconceito e não a alma. Nos obsidiamos. Nunca são os outros que nos culpam, sempre somos nós mesmos. Ninguém tem o poder sobre nós, se acolhemos uma acusação é porque demos guarida a ela, demos o controle para os outros. Eles sendo reais ou internalizados em nós.
Continua...
Assim, quando queremos saber sobre as coisas, ver, tocar, sentir, escutamos falas como:
- Vai. Vai viajar, eu fico aqui sozinha...
- Tira a mão daí, menino !
- Se você fosse mais inteligente...
- Onde já se viu perguntar uma barbaridade dessas...
- Isso não é coisa para se comentar.
- Não toque em minhas plantas!
Engolimos nossa curiosidade, nossa necessidade de investigação, nos sentimos mal por termos provocado no outro tamanho estupor com a vontade que tínhamos de saber.
Aprendemos, dessa maneira, que somos abelhudos, indiscretos, e que isso não é uma atitude correta. Devemos ser comedidos, só ver com os olhos, não questionar muito, não sentir para não precisar perguntar. Só que continuamos com o impulso, aí ele se vira contra nós e acabamos por nos sentir culpados por ser ignorantes, por não saber distinguir bem as coisas, por não ter discernimento suficiente.
Entramos na dependência de outras pessoas que julgamos mais capazes que nós, ficamos com medo do inesperado, do desconhecido, e nos sentimos culpados por não conseguir ser como deveríamos.
Outras vezes, temos aquela vontade de dominar as coisas, de dirigi-las segundo nossas percepções, e escutamos falas como:
- Que vão pensar os vizinhos?
- Olha o que você está fazendo comigo, sendo tão teimoso!
- Seja mais obediente, mais acessível.
- Ou você senta e cala a boca ou...
- Você desobedeceu a Deus...
- Isso é teu carma e você tem de cumprir.
- Não grite comigo, pois eu sou...
Em minha casa, por exemplo, não era necessária a fala, bastava o olhar de meu pai para que ficássemos quietos.
Tornamo-nos pessoas sem muita coragem, sem muita firmeza, sentimo-nos impotentes frente às situações da vida. A sensação de culpa vem quando não conseguimos segurar determinadas barras, quando não dizemos o que temos vontade, quando não confrontamos o outro, quando não temos a força necessária para mudar o que não mais queremos.
Em relação ao prazer, a busca por ele também é bastante produtora de culpa, pois, se tem uma regra que nos ensinaram bem, é que o prazer é pecado. Vamos recordar algumas coisas que escutamos:
- Seu parto foi muito difícil.
- Onde já se viu, desse tamanho, fazendo xixi na calça.
- Tire a mão daí, é feio.
- Você não se envergonha de ficar tanto tempo vendo tevê?
- Esse tipo de carinho já não serve mais para uma mocinha.
- Você é muito gorda para andar de short.
- Credo! Você ficou duas horas tomando banho. Quem paga?
- Você não tem nada de útil para fazer?
- Festa? Festa para quê? Você vê seus amigos todos os dias na escola. Não precisa juntar ninguém.
- Pare de cantar, pois está me deixando louca.
Embutimos nossa busca de satisfação, nossa alegria de viver, nosso entusiasmo e agora nos sentimos culpados quando temos um pensamento sexual, quando sentimos necessidade de fazer um carinho, de tocar alguém, quando temos um tempo de folga e não o usamos fazendo algo "útil", quando transamos com alguém e não sentimos nada, por termos vontade de ser "fúteis".
A sensação de culpa vem provocada pela sensação de imperfeição, pela sensação de não se satisfazer nunca, de julgar-se relaxado, sem criatividade, sem a feminilidade ou a masculinidade necessária. Quando nós mesmos nos achamos uma companhia desagradável, não sabemos nos dirigir às pessoas.
O pior: não sabemos como nos livrar disso. Torna-se um círculo vicioso, pois sentimo-nos incapazes de descobrir, sentimo-nos culpados por isso, essa culpa aumenta a outra, que, por conseguinte, tende a aumentar o problema e a diminuir nossa capacidade de lidar com ele.
A autocondenação

Vimos como aprendemos a nos sentir culpados. Que ao recalcar nossos impulsos naturais produzimos núcleos em nós que provocam sensações de culpa.
Esse mecanismo é aprendido por nós e passamos a usá-lo conosco sem a necessidade da presença do outro para nos coibir ou acusar. Internalizamos "os outros", a normas culturais, os padrões sociais.
Quando quebramos uma regra dessas, um código moral, uma expectativa do mundo ou um ideal nosso, tendemos a nos sentir culpados. Não aceitamos que se não cumprimos é porque não tínhamos condição de cumprir. Pedimos mais do que realmente podíamos dar.
Queremos ser o que não temos condições de ser. Nós não somos o que pensamos de nós. Só somos o que somos. Nossa mente fantasia em cima das possibilidades dos seres e nos achamos capazes de, ao idealizar um modelo de pessoa, vestir o que inventamos.
Vaidade ! É, culpa é vaidade. É orgulho espiritual. Queremos com nossa culpa mudar o que fizemos. Queremos trabalhar com a fantasia e ir contra a realidade. Que realidade? Aquela que nos mostra que só podemos o que podemos, o resto é fruto de idealização, do manequim que montei para mim, mas não sou eu.
O que eu pude, fiz; o que não fiz, é porque não podia. Não tinha maturidade para, não me interessava, não tinha consciência das consequências. Mas, o que realmente era, foi feito.
Não adianta a gente chorar o leite derramado. Derramou porque não ficamos olhando. Só! Choramos em cima de um código que não cumprimos, porque não nos pertencia de verdade.
É como se tivéssemos um juiz dentro de nós. Não percebemos a realidade, só o código. Unimos nosso juiz pessoal com o juízo social e criamos uma forma-pensamento que nos condena e nos absolve em todas as atitudes. Um juiz que só sabe julgar, que tenta fazer com que as experiências entrem no quadro de valores aprovado pela moral social. Não há discernimento, não há bom senso; o que vale para um passa a valer para todos.
As diferenças individuais, as experiências, o nivel de consciência não contam. Tudo precisa estar na tabela do certo e do errado, dentro dos "tinha de", dos eu "devia", como se o ser humano coubesse dentro de algo preestabelecido, como se desconsiderasse toda a individualidade que lhe é pertinente.
Se sabemos disso, por que escutamos? Escutamos porque também aceitamos o erro, porque acreditamos nele. Acreditamos nos mesmos códigos que nos fazem mal. Nos pegamos dizendo: "Ah! Eu deveria ter ido vê-la, mas não fui porque não tive tempo" ou " Eu tinha de ter feito, mas não tive como, pois..." .
Arrumamos desculpas para as coisas que não foram exatamente como foram. Desculpas para atenuar nossa culpa de ser como somos.
Acreditamos que existe um melhor e que se nos esforçarmos chegaremos a ser o ideal que imaginamos ser. Pura ilusão! Não tem ser melhor, tem ser. Aquele que acredita poder ser melhor é porque se julga pior, se julga menos.
Nos culpamos porque exigimos algo de nós, que não podemos ser. Queremos poder o que não somos capazes. Seguimos o preconceito e não a alma. Nos obsidiamos. Nunca são os outros que nos culpam, sempre somos nós mesmos. Ninguém tem o poder sobre nós, se acolhemos uma acusação é porque demos guarida a ela, demos o controle para os outros. Eles sendo reais ou internalizados em nós.
Continua...

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